Por: Paulo Zamboni - Pai e Presidente da AMA OESTE

A cada Dia dos Pais, eu me sinto uma pessoa diferente. Enquanto meu filho cresce, percebo que tenho novas responsabilidades, mais amor e muitas preocupações.

Posso dizer com todas as letras que sou apaixonado pelo filho. O motivo da minha vida mudou, após aprender o significado do conceito (amor incondicional).

Isso aconteceu depois do nascimento do nosso filho autista. Até então, eu achava que todo amor de pai pelos filhos já era incondicional.

Afinal, nem todo filho faz uma faculdade, ou se casa. O segredo está no potencial de cada criança. Pois, ainda que nossos filhos acabem não fazendo o que sonhamos, eles podem (têm o potencial para) fazê-lo. Sem nenhum ‘manual de instrução e uso’, temos que fazer nossa cabeça dar um giro de 360 graus para entender como funciona sua cabecinha. E apesar do susto inicial e do medo por seu futuro, aprendemos a amá-la de um modo inimaginável para outros pais (sem um filho especial).

Nós, pais de crianças autistas, vivemos uma realidade estranha e incompreensível aos demais. Se é melhor ou pior, isso varia conforme a capacidade de aceitação de cada um. Gabriel, hoje tem 8 anos está em processo de alfabetização, ainda não sabe ler e escrever de forma plena. Porém, ele tem muita facilidade com a tecnologia. Os equipamentos e brinquedos interativos se conectam facilmente com ele devido a sua excelente memória fotográfica. Vejo que a tecnologia está sendo um grande aliado para o desenvolvimento das suas habilidades de raciocínio e compreensão do mundo externo.

Mas o seu interesse não se limita somente a isso, adora os órgãos do corpo humano, animais, insetos e seu próximo objetivo é aprender a nadar. Tem seus próprios medos, seu próprio tempo para aprender, para lidar com as emoções e fica muito irritado quando não consegue se expressar.  

Eu não deveria ficar surpreso, mas o fato é que Gabriel é um menino cercado de amigos da mesma idade, que o compreendem e gostam dele. O que é compreensível, pois as que as crianças procuram as semelhanças, e não a diferença.

Da mesma forma, os pais dos amiguinhos do Gabriel apoiam e estimulam esse convívio, o que hoje me deixa muito feliz, apesar de saber que, no futuro, nem todas as pessoas terão a mesma sensibilidade com o fato de meu filho ser diferente. Afinal de contas o preconceito vem dos adultos e não das crianças. Procuro lidar com essa preocupação tão grande em atitudes, que em geral envolvem carinho, muita paciência e comunicação com o meu filho.

Crianças autistas precisam, acima de tudo, de muito amor, de compreensão e estímulo. Às vezes, é claro que reconheço, é difícil chegar de um dia de trabalho e lidar com um comportamento mais agressivo, com uma traquinagem que precisa ser corrigida e que vai gerar uma inevitável situação de estresse. Mas é preciso que os pais procurem lidar com a contrariedade. É preciso tentar o abraço, mostrar que você esta presente e que o seu filho tem apoio e amor, mesmo depois de você repreendê-lo.

Esse aprendizado para o pai de uma criança autista é um caminho longo, que exige muito empenho, mas proporciona alegrias e conquistas que não tenho palavras para contar. Divido as alegrias e as angústias com muitos outros pais, que, pelos filhos, participam da AMA OESTE. Nos encontros, compartilhamos experiências, nos aconselhamos mutuamente e procuramos espalhar informação a todas as pessoas, para que elas compreendam melhor o autismo e  não excluam as pessoas com necessidades especiais.

Em 2015, vi o Gabriel escrever as primeiras palavras, expressar-se falando frases e não apenas palavras soltas e procurar a comunicação com os mais próximos. Outro dia, enviou-me a palavra “Gaby”, escrita pelo WhatsApp. Como não lhe respondi, gravou uma mensagem de voz insistindo, do jeito dele “gostou que eu escrevi?” Depois que aprendeu a usar o WhatsApp, não para de mandar mensagens de áudio para os amigos e familiares.

E assim, a cada conquista, o Gabriel renasce. Faz-me ver o mundo com outros olhos e a perceber que ser pai é um presente de valor inestimável. Feliz Dia dos Pais.